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| Jean Liedloff (1926-2011) |
A antropóloga americana Jean Liedloff estudou a tribo venezuelana dos Yequana e defende que para conseguir um desenvolvimento físico, mental e emocional ótimo, o ser humano e especialmente um bebê, necessita o tipo de experiências às quais a nossa espécie se adaptou durante uma longa evolução. Para uma criança são: constante contato físico com seu cuidador desde o nascimento, dormir com os pais até deixar de fazê-lo por vontade própria, amamentação a livre demanda, ser levado constantemente nos braços ou de maneira que possa observar a atividade do adulto, ter cuidadores que respondam aos seus sinais imediatamente sem julgá-la e finalmente, sentir que cumpre as expectativas dos pais, que é bem-vindo e digno. Segundo Liedloff, as crianças cujas necessidades “continuum” forem satisfeitas crescerão com maior auto-estima e serão mais independentes.
Nos
dois anos e meio que morei entre os índios da idade da pedra na selva
sul-americana – não consecutivos, mas sim em cinco expedições distintas
com muito tempo entre elas para refletir – cheguei a compreender que a
natureza humana não é o que nos fizeram acreditar. Os bebês da tribo
Yequana, longe de precisarem de paz e tranquilidade para dormir, tiravam
uma soneca tranquilinhos enquanto os homens, mulheres ou crianças que
os carregavam dançavam, corriam, andavam ou gritavam. Todas as crianças
brincavam juntas sem brigar ou discutir e obedeciam aos mais velhos no
mesmo instante e de bom grado.
A
essa gente, nunca lhes passou pela cabeça a idéia de castigar uma
criança e, no entanto, seu comportamento não deixa entrever
permissividade nenhuma. Nenhum moleque faz escândalo, interrompe os
outros ou espera que um adulto lhe mime. Aos quatro anos, contribuíam
mais com as tarefas do lar que davam trabalho elas mesmas.
Os
bebês nos braços quase nunca choravam e era fascinante comprovar que
não agitavam os braços e as pernas, não arqueavam as costas nem
flexionavam as mãos e os pés. Permaneciam sentados nos slings ou dormiam
encostados nos quadris do seu cuidador, desmentindo deste modo a crença
de que os bebês precisam mover-se e flexionar as extremidades para
exercitar-se.Também observei que não regurgitavam a não ser que
estivessem muito doentes e que também não tinham cólicas. Quando se
assustavam nos primeiros meses de engatinhar, não esperavam que ninguém
acudisse correndo, ao invés disso, iam sozinhos em direção à mãe ou
cuidador em busca dessa sensação de segurança antes de seguir com suas
explorações. Inclusive sem supervisão, nem os menorzinhos se machucavam.
Será
que sua natureza humana é diferente da nossa? Algumas pessoas assim o
creem, mas evidentemente só existe uma espécie humana. Que podemos
aprender, então, da tribo Yequana?
Antes
de tudo, podemos tentar compreender o poder educativo do que eu chamo
da “fase do colo”, que começa no momento do nascimento e termina quando o
bebê começa a mover-se, quando pode afastar-se do seu cuidador e voltar
quando queira. Essa fase consiste, simplesmente, em que o bebê tenha
contato físico durante as 24 horas com um adulto ou criança mais velha.
A
princípio, vi que essa experiência tinha um efeito extraordinariamente
benéfico para os bebês, que não eram tão difíceis de tratar. Seus suaves
corpinhos se adaptavam a qualquer postura que fosse cômoda para quem o
levasse. Em contraposição a esse exemplo, vemos a incomodidade dos bebês
que, com sumo cuidado, dormem no berço ou no carrinho. Bem agasalhados,
se encontram lá jogados e rígidos, com o desejo de abrigar-se a um
corpo vivo e em movimento: o lugar que lhes corresponde por natureza. Um
corpo, em definitivo, que pertence a alguém que acreditará no seu choro
e aliviará o seu anseio com braços afetuosos.
Por quê nossa sociedade é tão incompetente? Desde a infância, nos ensinam a não acreditar nos nossos instintos. Condicionados
para desconfiar do que sentimos, nos persuadem para que não acreditemos
no choro de um bebê que diz: “ Me pega no colo!”, “Quero estar com
você!”, “Não me deixe!”. Em lugar disso, recusamos a idéia da
resposta natural e seguimos os preceitos da moda que são ditados pelos
“especialistas” no cuidado infantil. A perda da fé em nossa experiência
inata nos leva a pular de um livro a outro, à medida que vão fracassando
todas e cada uma das modas passageiras.
É
essencial entender quem são os verdadeiros especialistas. O segundo
especialista em cuidado de bebês reside no nosso interior, assim como em
cada ser vivo que, por definição, deve saber como cuidar de sua cria. É
claro que o maior especialista é o próprio bebê, programado durante
milhões de anos de evolução para demonstrar seu temperamento com sons e
gestos quando gosta do cuidado que recebe. A evolução é um processo de
perfeição que “afinou” nosso comportamento com uma precisão magnífica. O
sinal do bebê, a compreensão deste por parte dos que o rodeiam e o
impulso a obedecê-la formam parte do caráter da nossa espécie. Nosso
intelecto presunçoso demonstrou-se mal preparado para advinhar as
autênticas necessidades do bebê. A pergunta costuma ser: “Devo pegar o
bebê quando chora?”, “Devo deixar chorar um pouco antes de pegâ-lo?” ou
“Deveria deixar que chore para que saiba quem manda e não se torne um
tirano?”.
Nenhum bebê concordará com essas imposições. De forma unânime nos fazem saber através de gestos e sinais que não querem que lhes façamos dormir e lhes ponhamos no carrinho.Como
essa opção não foi muito defendida na civilização ocidental atual, a
relação entre pais e filhos acabou marcada por essa confrontação.
O jogo se centrou em como fazer o bebê dormir no berço, mas nunca se debateu se é preciso respeitar ou não o choro do bebê. Apesar
de que o livro de Tine Thevenin, The Family Bed (A Cama Familiar),
entre outros, abriu a brecha com o tema de que as crianças durmam com
seus pais, não se abordou com claridade suficiente o princípio mais
importante: “Atuar contra a natureza como espécie conduz
irremediavelmente à perda do bem-estar”.
Então,
uma vez que compreendamos e aceitemos o princípio de respeitar as
expectativas inatas, poderemos descobrir com exatidão quais são essas
expectativas. Em outras palavras, saberemos o que é que a evolução nos
acostumou a experimentar e sentir.
A Função Educativa
Como cheguei à conclusão de quão importante é a fase do colo para
o desenvolvimento de uma pessoa? A primeira coisa que vi foi como era
feliz essa gente nas florestas da América do Sul com seus bebês
penduradinhos no corpo e, pouco a pouco, fui relacionando esse fato tão
simples com a qualidade de vida. Mais tarde, cheguei a certas conclusões
a respeito de como e por quê é essencial o contato contínuo com o
cuidador na fase pós-natal do desenvolvimento.
Por
um lado, parece que a pessoa que carrega o bebê (normalmente a mãe
durante os primeiros meses e depois uma criança de 4 a 12 anos que
devolve o bebê à mãe para que esta lhe dê de comer) está servindo de
base para as experiências posteriores. O bebê participa passivamente nas
corridas, passeios, risadas, bate-papos, tarefas e brincadeiras do
cuidador que o carrega. As atividades, o ritmo, as inflexões de
linguagem, a variedade de vistas, noite e dia, a variação de
temperatura, secura e humidade, além dos sons da vida em comunidade,
formam a base para a participação ativa que começará aos seis ou oito
meses, com o arrasto, a engatinhada e depois o passo. Um bebê que passou
todo esse tempo deitado no berço, olhando o interior de um carrinho ou o
céu, terá perdido a maior parte dessa experiência essencial.
Devido à necessidade que a criança tem de participar, é muito importante que os cuidadores não fiquem olhando pra ele ou perguntando constantemente o que querem, mas sim que deixem que eles mesmos tenham vidas ativas. De vez em quando, não podemos resistir a dar-lhes um monte de beijos, no entanto, uma criança que está acostumada a ver passar a vida agitada que levamos se confunde e se frustra quando nos dedicamos a contemplar como ele vive a sua. Um bebê que não fez mais que contemplar a vida que vivemos, se submerge na confusão se lhe pedimos que seja ele quem a dirija.
Parece
que ninguém se deu conta da segunda função essencial da experiência da
fase do colo, inclusive eu mesma, até meados da década de 60. Esta
experiência dota os bebês de um mecanismo de descarga do excesso de
energia que não são capazes de fazer por si mesmos. Nos meses anteriores
a poder mover-se sozinhos, acumulam energia mediante a absorção do
alimento e a luz solar. É então quando o bebê necessita o contato
constante com o campo energético de uma pessoa ativa que possa
descarregar o excesso de energia que nenhum dos dois utiliza. Isso explica porque os bebês Yequana estavam tão relaxados e porque não ficavam rígidos, davam chutes ou arqueavam as costas.
Para oferecer uma experiência ótima nesta etapa temos que aprender a descarregar nossa energia de maneira eficaz. Podemos acalmar mais rapidamente um bebê correndo com ele, dançando ou fazendo o que seja para eliminar o excesso de energia próprio. Uma mãe ou pai que tem que sair de repente para buscar alguma coisa não precisa dizer: ”Fica com o bebê que vou correndo até a loja”. O que tenha que sair que leve o bebê. Quanto mais ação, melhor.
Bebês e adultos experimentam tensões quando a circulação de energia nos seus músculos não flui bem. Um bebê cheio de energia acumulada não descarregada está pedindo ação: uma volta pela sala dando pulinhos ou uma dança agitada. O campo de energia do bebê aproveitará imediatamente essa descarga do adulto. Os bebês não são as pessoinhas frágeis que costumamos tratar com luvas de seda. De fato, se neste estágio de formação tratamos a um bebê como se fosse frágil, acabará acreditando que é fraco de verdade.
Como pais, podemos conseguir a destreza para comprender o fluxo de energia do nosso filho. No processo, descobriremos muitas mais maneiras de ajudá-lo a manter o suave tônus muscular do bem-estar ancestral e de proporcionar-lhe a calma e o conforto que necessita para sentir-se confortável nesse mundo.
Por
um lado, parece que a pessoa que carrega o bebê (normalmente a mãe
durante os primeiros meses e depois uma criança de 4 a 12 anos que
devolve o bebê à mãe para que esta lhe dê de comer) está servindo de
base para as experiências posteriores. O bebê participa passivamente nas
corridas, passeios, risadas, bate-papos, tarefas e brincadeiras do
cuidador que o carrega. As atividades, o ritmo, as inflexões de
linguagem, a variedade de vistas, noite e dia, a variação de
temperatura, secura e humidade, além dos sons da vida em comunidade,
formam a base para a participação ativa que começará aos seis ou oito
meses, com o arrasto, a engatinhada e depois o passo. Um bebê que passou
todo esse tempo deitado no berço, olhando o interior de um carrinho ou o
céu, terá perdido a maior parte dessa experiência essencial.Devido à necessidade que a criança tem de participar, é muito importante que os cuidadores não fiquem olhando pra ele ou perguntando constantemente o que querem, mas sim que deixem que eles mesmos tenham vidas ativas. De vez em quando, não podemos resistir a dar-lhes um monte de beijos, no entanto, uma criança que está acostumada a ver passar a vida agitada que levamos se confunde e se frustra quando nos dedicamos a contemplar como ele vive a sua. Um bebê que não fez mais que contemplar a vida que vivemos, se submerge na confusão se lhe pedimos que seja ele quem a dirija.
Parece
que ninguém se deu conta da segunda função essencial da experiência da
fase do colo, inclusive eu mesma, até meados da década de 60. Esta
experiência dota os bebês de um mecanismo de descarga do excesso de
energia que não são capazes de fazer por si mesmos. Nos meses anteriores
a poder mover-se sozinhos, acumulam energia mediante a absorção do
alimento e a luz solar. É então quando o bebê necessita o contato
constante com o campo energético de uma pessoa ativa que possa
descarregar o excesso de energia que nenhum dos dois utiliza. Isso explica porque os bebês Yequana estavam tão relaxados e porque não ficavam rígidos, davam chutes ou arqueavam as costas.Para oferecer uma experiência ótima nesta etapa temos que aprender a descarregar nossa energia de maneira eficaz. Podemos acalmar mais rapidamente um bebê correndo com ele, dançando ou fazendo o que seja para eliminar o excesso de energia próprio. Uma mãe ou pai que tem que sair de repente para buscar alguma coisa não precisa dizer: ”Fica com o bebê que vou correndo até a loja”. O que tenha que sair que leve o bebê. Quanto mais ação, melhor.
Bebês e adultos experimentam tensões quando a circulação de energia nos seus músculos não flui bem. Um bebê cheio de energia acumulada não descarregada está pedindo ação: uma volta pela sala dando pulinhos ou uma dança agitada. O campo de energia do bebê aproveitará imediatamente essa descarga do adulto. Os bebês não são as pessoinhas frágeis que costumamos tratar com luvas de seda. De fato, se neste estágio de formação tratamos a um bebê como se fosse frágil, acabará acreditando que é fraco de verdade.
Como pais, podemos conseguir a destreza para comprender o fluxo de energia do nosso filho. No processo, descobriremos muitas mais maneiras de ajudá-lo a manter o suave tônus muscular do bem-estar ancestral e de proporcionar-lhe a calma e o conforto que necessita para sentir-se confortável nesse mundo.
Leitura:
- Continuum Concept, The – Liedloff, Jean. Perseus Books (1986).
revista espanhola Tu Bebé, número 188.
http://www.continuum-concept.org/



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